El Cóndor Pasa

"De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir suas irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens."
- Manoel de Barros, "Ensaios Fotográficos"

No início de 2012, ao cabo de dias de extenuante expedição, fomos surpreendidos por uma forte tormenta que se formara sobre a face Noroeste do Aconcágua. Ali permanecemos isolados por três dias em uma pequena barraca, a experimentar a cólera da natureza. Sob temperaturas inferiores aos -40º, o mundo sem cores do lado de fora parecia se acabar. Em um instante, um curto chamado do rádio precipitaria o regresso. O prognóstico era de piora...

Dias antes, porém, durante o vendaval, o tempo se descortinara por não mais do que alguns minutos, revelando o mais belo pôr do sol  já visto, intermitência de cores que tingia o céu já habituado ao turvo, segredo guardado pelo frio, que não nos permitia retirar as luvas para aprisioná-lo em fotos. 

Um ano mais tarde, em uma noite igualmente fria, em meio a dias silentes pelo deserto andino, restaria confrontado com uma maratona sob a mirada dos Ojos del Salado, no trecho final que leva ao seu cume. O resultado de semanas de expedição, infindáveis horas de caminhada, teria síntese em não mais do que 10 minutos de êxtase no teto do mais imponente vulcão do mundo... 

O montanhismo, assim como a fotografia, é feito de instantes. Segundos que concentram sensações das horas, memórias que resumem a intensidade dos dias. Ligeiros flashs que lampejam na infinitude de dias opacos e que sobrevivem à imensidão de lembranças que se apagam. Como o condor que sobrevoa a montanha, vastidão de imagens circundam nossas cabeças, enchem os olhos, e em segundos, passam... As que resistem, aqui compartilho.